2008-05-06

história de desencantar

Tinha tanto universo para aprender. Mas o terror daquela imagem aparecia a horas imprevistas. Dizia coisas surpreendentes. Uma coisa sobre o prato principal que vomitas-te com a mesma naturalidade com que os outros falavam de coisas triviais. Como se o mundo de repente fosse absolutamente alheio. Outra coisa sobre aquele ser que não é bem deste mundo talvez porque me apetecia enfiar pelo chão abaixo quando a existência caiu distraída na sopa. A minha relação com a vida quotidiana é desabitada. Não há transparência da palavra se não há preocupação cosntante de celebração de palavras essenciais. Aceito com ingenuidade a negligência com que abdico da exigência de essencialidade. Porque o jantar não é essencial. E no entanto aquilo que distingue o bem do mal é a alienação que te leva a pensar a existência do bem e do mal. Não tem muito substantivo. A secura das palavras tornou-se desnecessária na ligação às coisas. Tenho absoluta confiança na palavra obscuro. O meu encontro com as vozes marca a distância do ponto de partida. A forma de tratamento dos temas escreve histórias destinadas aos outros. Não a mim. Talvez amanhã comece a inventar histórias para crianças que não comecem por era uma vez uma menina que era filha de ciganos. Não suportarei a pieguice do convite para me deitar na mesma cama. Procuro a memória daquilo que não me fascinou na infância para não esquecer lugares. Acontecimentos. Pessoas. Convido-me a mergulhar num maravilhoso mundo de fantasia. Convido-me a mergulhar num maravilhoso mundo de beleza que não acabe em histórias de amor e generosidade que acabam assim essa não mãe essa não. Uma salva de palmas.

2008-04-14

fnac santa catarina

preciso. gostava. quero. preciso.preciso que leias o que escrevo.
como te chamas. susana. quantos anos tens. faço trinta e quatro para a semana. como tu.

2008-01-28

o veneno diluido no café pesou-me a alma

Inclinas-te para o interior do sonho que se apagou na memória demolida de mim. O rosto ficou morto nos escombros de um papel escrito. Talvez um recado caído no chão do corredor que os meus passos davam em direcção a ti. Abri as pálpebras e senti o vento torcido que desceu de uma voz pesada eterna sobre o aço inocente da maçaneta da porta. Segredei nada. Ambos destruídos. Mas tu mal entendias a língua que te segredava. Corto os pulsos e esgueiro-me em sussurro aprisionado para o navio da alma que partiu. O quarto estava escuro. O tempo era muito tempo na linha do horizonte. Como se estivesse a esconder a palavra sol. Escrevi a giz numa parede polida afundei-me em ti. E quando acordei queimei as mãos na surdez do calor que flutuou nos ombros. E abriu-se uma fenda de fogo púrpuro sob o meu rosto de orvalho. Frente ao espelho fingi o sono que não dormi. A morte metamorfoseou a insónia do coração. Pouco a pouco nunca estive aqui. Tenho a certeza que fui envenenada momentos antes de prosseguir com a morte que anunciei há quinze dias. Retomo o monólogo que perscruto nas palavras silabadas no recado de um papel escrito. Talvez estivesses a jantar e não te sentisses atraído para o recado do papel escrito. Penso até que continuas-te a tentar comer, calmamente, sem dar grande importância ao arrepio que me percorreu a espinha mas ao fim de alguns minutos corri para a casa de banho e vomitei a minha existência. Abri-te os olhos com a ponta de uma faca e sentados no banco de um jardim ocorreu-me de repente que não sabia o teu nome.

2008-01-02

na manhã seguinte ficamos com as mãos na cabeça

eu talvez quisesse sorrir.
a palma da tua mão estava aberta.
pousas-te a ausência do teu olhar no sofá encostado à lareira que não te chegou a aquecer.
senti cada instante das noites que nos aproximou.
talvez tivesse querido oferecer-te uma fotografia a preto e branco. tenho quase a certeza que falaria do caminho que falta para chegares a casa. seria uma fotografia nublada de sentimentos, uma espécie de feira de recordações de amanhã que passam em dor por nós. por ti. sacos de lágrimas enbrulhadas em panos aos xadrez, sapatos deixados ao acaso, restos de comida e vinho tinto espalhados pela mesa, cigarros de todos e não de ti, mala enfiada no ombro para saíres com urgência. mas vais ficando porque as portas estão fechadas. a fotografia da feira foi-se tornando num esqueleto de ocasiões carregadas daquele dia que te lembrava os dias anteriores.
às vezes ficavas sentado enquanto comias pesarosamente. comias nada com um garfo sem história da alumínio polido. seguravas uma navalha enferrujada com a mão esquerda. a corda estica até à noite anterior. e antes dessa noite os teus movimentos trôpegos pareciam levar-te a um sítio onde as chamas avançam por uma porta aberta encostada ao teu peito. os teus passos eram um ruído leve. havia uma camada fina de céu sobre o teu rosto.
começamos a chorar-te das sete horas até sempre. a lareira ficou em braseira.
não é muito tempo e a distância para chegares a casa é a de um sopro de luz que vais dobrar e guardar numa gaveta num sítio seguro. porque precisas desse som liso do abrir da gaveta usada. gasta. solta. esgotada. imaginada. vivida. aproximada. distante. ternamente morta.

2007-11-26

deambulando: rua e decoração de natal

entre o ódio e o amor encosto-me a ti na esperança que me ampares.
denuncio-me encostada à rua que tantas vezes não percorremos.
a decoração de natal enjoa-me. fiz uma lista de compras.
não lhe confiro sentido. e acosso-me neste não sentido que alguém entenderá.
reclamo-me novos óculos.
a tua rua é estreita. passaremos mais vezes e de cada vez será a primeira.
vinte por cento de desconto na compra superior a duzentos euros.
agrada-me a espontaneidade de complexos tentáculos de saber que não te sei.
leve três pague dois. só hoje.
financio um gesto furtuito. aceitamos crédito.
aceitamos sentir. hoje. sem desconto.
proponho-me organizar uma expedição à tua cidade. passos incertos.
deambulando. deambulando. lânguida serenidade da experiência.
sou espect-actor de uma nova poética do sentir. reconfigurar a expressão do corpo e aceitar o lusco-fusco do desenho a tinta da china sem papel.
trilhos. caminhos. passagens. margens.
ausência de mim. em ti. num colectivo estonteante.
saí. a decoração de natal enjoa-me.

2007-10-06

casaco de pele e perfume chanel

Vais sair? Leva o casaco de pele. E não te esqueças do perfume chanel.
Pinta a cara de modo a esconder a verdade.
Usa um baton que te deixe dizer do que serás só metade.
Sorri lá fora para todos como um boneco fabricado.
Daqueles que as crianças embalam. Como um deus adorado.
Caminha em passos apressados com destino incerto. Não importa saber para onde vais.
Deves deixar-te conduzir pelo ritmo frenético do trânsito maldizendo o tempo e a falta dele. Culpar o céu e o inferno pela eterna incerteza do bem e do mal. De uma certa conduta imoral.
Pelo meio comer uma sandes em pé ao balcão.
Alguém pede uma esmola para comer uma sopa e dizer não.
Fumar um cigarro sem sabor beber um trago de café amargo pensar no futuro e no amor.
Na rua as vozes mudam das gentes que passam despidas de um traço porque são todas iguais.
E banais atravessam para o outro lado e entram no autocarro e picam o bilhete. No meio um paquete [que a encomenda tarda na entrega da doutora da caneta permanente da rua do Intendente].
E ausentes no olhar de quem vai e vem. E vai e vem. E entra e sai. Gente que disfarça o anonimato desejado com um eloquente como vai. Se por delírio o vizinho [que há dez anos se senta no mesmo banco da mesma carreira sempre à minha beira] cujo nome não sei porque nunca lhe perguntei tenta uma conversa na hora do trânsito está muito calor viu as noticias um horror saio na paragem que se segue. E aguardo tranquilamente o próximo transporte quer me conduza até à morte.
E aqui fico lânguida e eterna amante derrotada desta sina que vivo por obrigação. Não porque venha do coração. Deixo-me arrastar sem mais força para lutar. A mentira prevalece mitigada na verdade que me fazem crer ser o caminho certo. Mais vale parecer. Que ser. De que vale questionar se isso te vai fazer sofrer. A vigilância é inimiga da vida. A sensatez não se conquista compra-se numa revista. A lucidez deprime. E o resto do filme já se sabe. Não é que anime.
Abre. Abre uma caixa de Prozac que por milagre te devolve a vida. Não teimes no amor. Na liberdade. Na poesia. Nessas formas paralelas de uma quase heresia. Aceita um sorriso de plástico que te ofereço num embrulho. Deita fora esse entulho. Veste o casaco de pele. E não te esqueças do perfume chanel. E se esta meda que acabo de escrever nada te diz eu digo és (in)feliz. És muito (in)feliz.

(1 Agosto 2003)

2007-10-03

a casa nova

a porta está entreaberta.
não sei se me dizes para entrar ou ficar em espera.
campo de intermitentes batalhas este nosso voto em branco de luto.
asseguro o teu ínício só. em angústia passiva que te conheço desde sempre.
prescruto os comentários de ninguém. surdez louca das vidas em mudança.
arquivo a ilusão de um sorriso eterno.
qualquer um pode ler no letreiro da entrada bem-vindo.
desacostumada humidade esta que me exclui do teu destino.
continuo a esperar-nos. num qualquer dia. ontem talvez.
no dia seguinte confirmo o rumor que é pouco provável que me sente contigo.
os camiões da limpeza passam para levar a cegueira dos meus crimes. atei o saco com três nós.
é como se tivesses mandado comissariar a inconfidência deste nosso sofrer.
baixei a cabeça e olhei-te. não me reconheces-te.
tenho estado á tua espera dissemos sem nos olharmos.